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Licenciatura pré-ChatGPT: o novo “pré-Bolonha”?

A chegada do ChatGPT e de outras tecnologias de inteligência artificial tem provocado uma verdadeira revolução no campo da educação superior, levantando debates acalorados sobre o futuro da licenciatura e dos currículos acadêmicos. Muito se compara essa transformação com a implementação do Processo de Bolonha, um marco significativo na organização e padronização da educação universitária na Europa. Neste texto, vamos explorar as nuances dessa nova mudança, com foco especialmente no que se poderia chamar de “pré-ChatGPT” — o momento anterior à massificação da IA nas salas de aula e nos currículos de formação.

Para compreender o impacto do ChatGPT no ensino superior, é fundamental revisitar o que foi o Processo de Bolonha e o que ele representou para a licenciatura. Implantado oficialmente em 1999, o Processo de Bolonha buscava criar um Espaço Europeu de Ensino Superior (EEES), promovendo a comparabilidade e a compatibilidade entre os diplomas universitários, facilitando a mobilidade acadêmica e profissional dos estudantes e graduados. A principal transformação foi a divisão dos estudos em três ciclos: graduação (bacharelado/licenciatura), mestrado e doutorado.

No contexto brasileiro e de outras regiões, a reforma do modelo educacional inspirada no Processo de Bolonha incentivou o redirecionamento das licenciaturas, focando nelas a formação para o ensino e a interdisciplinaridade, mas também trouxe desafios significativos. Um destes foi a resistência à mudança, tanto dos alunos quanto de professores e instituições, que temiam a perda de autonomia e a padronização excessiva. Contudo, ao longo destes anos, as adaptações foram vistas com mais naturalidade e, muitas vezes, com resultados positivos.

Entrando na era do ChatGPT, o cenário se repete de forma ainda mais intensa, mas com uma diferença fundamental: enquanto o Processo de Bolonha tratava sobretudo da estrutura curricular, o avanço da inteligência artificial nos coloca diante de uma revolução pedagógica e metodológica. O "pré-ChatGPT" seria então a fase anterior à plena integração das tecnologias de IA na educação, equivalente ao período “pré-Bolonha”, marcado por práticas tradicionais, avaliações focadas na reprodução de conteúdo e pouco uso da tecnologia como ferramenta educacional ativa.

Vejamos alguns pontos críticos que caracterizam o período “pré-ChatGPT” e que indicam por que essa expressão tem sido utilizada para descrever o momento atual nas licenciaturas.

1. Avaliações centradas na memorização

Antes da popularização do ChatGPT, as avaliações nas licenciaturas tradicionalmente valorizavam a capacidade do aluno de memorizar informações e reproduzir o conteúdo em provas escritas ou orais. Essa prática, embora ainda presente em muitos cursos, encontra hoje uma forte contestação, pois a inteligência artificial pode facilmente realizar essas tarefas, colocando em xeque o valor dessas avaliações para medir o aprendizado real e a capacidade crítica dos estudantes.

2. Metodologias tradicionais e pouco interativas

O ensino, especialmente na licenciatura, frequentemente seguia um modelo expositivo, com longas aulas teóricas expositivas e pouca participação ativa por parte dos alunos. O ChatGPT surge como uma ferramenta que pode estimular uma aprendizagem mais ativa, personalizada, possibilitando questionamentos diretos e respostas imediatas, bem como incentivando a resolução de problemas em tempo real.

3. Redefinição do papel do professor

No “pré-ChatGPT” o professor era o detentor do conhecimento, a principal fonte de saber em sala de aula. A disseminação da IA exige uma mudança profunda: o docente deixa de ser apenas um transmissor para assumir o papel de mediador, orientador no uso crítico das ferramentas tecnológicas, além de um mentor para o desenvolvimento de competências socioemocionais e habilidades analíticas.

4. Currículos rígidos e pouco flexíveis

Outro aspecto marcante do período pré-IA é a rigidez curricular. Ainda que muitas licenciaturas tenham implementado grades curriculares flexíveis e eletivas, a definição de conteúdos e a sequência de disciplinas permanecem rígidas em grande parte das instituições. Com o advento da IA, há uma demanda crescente por currículos que se adaptem rapidamente às transformações do conhecimento e às novas competências exigidas no mercado de trabalho e na sociedade.

5. Baixa integração tecnológica

Antes do ChatGPT, a tecnologia era vista mais como suporte administrativo ou em ferramentas de ensino a distância básicas, como a disponibilização de slides e materiais online. Atualmente, espera-se que haja uma integração mais profunda, onde a IA seja utilizada para personalizar trajetórias de aprendizagem, facilitar a criação de conteúdos e apoiar o desenvolvimento de projetos interdisciplinares e colaborativos.

Tais transformações mostram por que muitos estudiosos e educadores estão tratando o momento atual das licenciaturas como um novo “pré-Bolonha”, uma fase transparente e que antecede a consolidação de novas formas e modelos educacionais. Mas será que esses paralelos são, de fato, pertinentes? O que esse novo “pré-Bolonha” da era do ChatGPT implica para todos os atores envolvidos?

Em primeiro lugar, é importante destacar que a implementação do Processo de Bolonha ocorreu em um contexto de busca por qualificação e mobilidade internacional que já caminhava de forma natural diante da globalização. No caso do ChatGPT, a revolução é tecnológica e cultural, representando uma mudança mais abrupta, rápida e com potencial disruptivo elevado tanto para métodos de ensino quanto para a própria natureza do conhecimento. Além disso, enquanto o Bolonha buscava alinhar currículos a partir de uma perspectiva europeia comum, a inteligência artificial força uma individualização do aprendizado e uma reestruturação dos currículos baseada em habilidades dinâmicas e adaptativas.

Além disso, o “pré-ChatGPT” aponta para a necessidade de um repensar profundo na formação de professores que atuam em licenciaturas. A capacitação docente, antes focada em conteúdos e habilidades pedagógicas tradicionais, agora deve englobar conhecimentos em tecnologia, ética, uso responsável das ferramentas de IA e metodologias ativas de ensino. Isso demandará mudanças também nas políticas públicas e nas instituições de ensino, que precisam estar preparadas para investir nesse processo de transformação.

Ainda, não podemos esquecer de um aspecto crucial: as questões éticas que o uso da IA levanta em seu emprego na educação. O “pré-ChatGPT” convive com um cenário pouco regulado, o que faz com que a integração do ChatGPT nas práticas pedagógicas precise ser acompanhada de debates contínuos sobre plágio, propriedade intelectual, vieses algorítmicos e o impacto da automação no papel do educador e no futuro da profissão.

Diante desse panorama, surgem alguns desafios e oportunidades que marcam a transição do “pré-ChatGPT” para a era digitalizada da licenciatura:

Concluindo, a expressão “pré-ChatGPT” como um novo “pré-Bolonha” funciona como uma metáfora potente para entendermos a dimensão histórica da transformação atual nas licenciaturas. Assim como o Processo de Bolonha representou uma nova etapa na estruturação da educação superior, as tecnologias de inteligência artificial, lideradas por ferramentas como o ChatGPT, representam um ponto de inflexão na forma em que o conhecimento é construído, compartilhado e avaliado.

Para que essa transição seja efetiva, será essencial que os atores do campo educacional mantenham um olhar crítico, aberto e proativo, aproveitando as oportunidades que a inovação tecnológica oferece, mas sempre atentos aos desafios e riscos envolvidos. O futuro da licenciatura não será apenas digital, mas também profundamente humano, combinando as potencialidades da IA com a sensibilidade, ética e criatividade que só o ser humano pode oferecer.

Portanto, mais do que temer uma revolução ou aguardar passivamente as mudanças, é hora de os educadores, estudantes e gestores assumirem protagonismo nessa nova era, transformando o “pré-ChatGPT” em um passado produtivo de aprendizado para o futuro da educação.