A evolução educacional é marcada por momentos de transformação profunda que impactam não apenas os currículos, mas também a forma como o conhecimento é disseminado, adquirido e aplicado. Um desses momentos históricos para o ensino superior no Brasil foi a implementação do Processo de Bolonha, que buscou harmonizar o sistema educacional europeu e influenciou diversas mudanças no mundo inteiro. Hoje, vivemos a ascensão de uma nova revolução tecnológica com o advento da inteligência artificial, especialmente com ferramentas como o ChatGPT, que desafia paradigmas tradicionais.
Mas o que seria uma “Licenciatura pré-ChatGPT”? Essa expressão pode parecer intrigante para muitos, mas reflete uma preocupação legítima e uma reflexão necessária sobre como a educação está sendo moldada antes e após a imersão das inteligências artificiais conversacionais em nossas rotinas acadêmicas. Podemos então questionar: a licenciatura tradicional que conhecemos até agora não estará prestes a passar por uma transformação tão significativa quanto a que aconteceu no período “pré-Bolonha”?
Para compreendermos melhor esse questionamento, é essencial revisitar o que foi o Processo de Bolonha e os impactos que este trouxe ao ensino superior. Implementado a partir de 1999, o Processo de Bolonha unificou os sistemas educacionais de 48 países europeus, estabelecendo normas para garantir a compatibilidade dos graus acadêmicos, a mobilidade dos estudantes, e a qualidade do ensino. Antes do Bolonha, muitos cursos tinham uma duração e estrutura variadas que dificultavam o reconhecimento internacional e a continuidade dos estudos. A implementação do modelo trouxe um formato mais padronizado, com ciclos de formação (graduação, mestrado e doutorado), promoção de currículos modulares e a adoção de um sistema europeu de créditos, o ECTS.
Da mesma forma, a chegada do ChatGPT pode representar o início de um período “pós-ChatGPT” para a licenciatura, deixando o ensino tradicional em um estágio “pré-ChatGPT”. É um momento em que métodos pedagógicos, formatos de avaliação, e a própria definição do que é conhecimento acadêmico começam a ser questionados e repensados. O impacto é tão profundo quanto o Processo de Bolonha trouxe há mais de duas décadas e não é mera coincidência que falemos em “pré” e “pós” para delimitar esses dois tempos distintos.
As mudanças trazidas pelo ChatGPT na educação superior:
Afinal, a licenciatura pré-ChatGPT refere-se a essa era em que a tecnologia ainda atuava como um apoio complementar, mas não como uma agente transformadora fundamental na dinâmica educacional. Essa fase ainda preserva formatos tradicionais, bases curriculares rígidas e avaliações convencionais que não consideram o universo da inteligência artificial integrada na vida acadêmica do estudante.
Entretanto, a entrada da IA nos processos educacionais obriga instituições a refletirem sobre a necessidade de reformular as diretrizes curriculares, os métodos pedagógicos e as estratégias de ensino de forma mais ampla, em uma transformação que pode ser tão revolucionária quanto a Brusca mudança trazida pelo Processo de Bolonha. Essa nova fase, que conceptualizamos como “pós-ChatGPT”, apresenta desafios e oportunidades para todos os envolvidos no mundo acadêmico.
Uma das principais questões que surgem é: como garantir a qualidade do ensino e o aprendizado real num cenário em que as ferramentas de IA podem responder instantaneamente as dúvidas dos estudantes?
Essa questão obriga todos os atores do ensino superior a repensar mecanismos e soluções que fortaleçam a capacidade dos alunos de compreender, analisar criticamente e aplicar o conhecimento, para além da simples reprodução e memorização de conteúdo. A transformação não está apenas na utilização das tecnologias de IA, mas na mudança da mentalidade educacional e na valorização de habilidades cognitivas complexas, como a criatividade, a resolução de problemas e o pensamento crítico.
Outra dimensão importante do debate diz respeito à responsabilidade ética: como garantir que os estudantes façam o uso ético da inteligência artificial, evitando fraudes acadêmicas e promovendo a integridade intelectual? É fundamental que a formação na licenciatura envolva esses debates, estimulando a reflexão crítica sobre as implicações morais e sociais da utilização da IA.
Além disso, há as adaptações necessárias para os currículos das licenciaturas: incluir disciplinas que abordem a relação entre tecnologia e educação, preparar professores para o uso das ferramentas de IA e desenvolver habilidades digitais nos discentes. Essa atualização curricular é essencial para que os cursos de licenciatura sigam sendo relevantes e eficazes diante das mudanças tecnológicas.
O paralelo com o Processo de Bolonha é especialmente relevante ao considerarmos:
Dessa forma, a expressão “pré-ChatGPT” torna-se um marco temporal e conceitual que ajuda a compreender e a organizar os processos de transformação na licenciatura. Entender que estamos vivendo um momento de ruptura, e que o modelo vigente precisa ser revisto e adaptado para a nova realidade tecnológica, é crucial para a construção de uma educação superior mais atual, inclusiva e eficaz.
Finalmente, podemos afirmar que a licenciatura pré-ChatGPT representa um modelo em transição, onde o valor da tradição convive com a inevitabilidade da inovação. O desafio para educadores, gestores, estudantes e políticas públicas é construir um caminho que integre o melhor desses dois mundos, garantindo que a tecnologia seja um instrumento para aprimorar a formação humana e profissional, e não uma substituta das competências essenciais ao desenvolvimento crítico e reflexivo dos futuros docentes.
O “novo pré-Bolonha” que se instaura com a chegada do ChatGPT e demais tecnologias emergentes no campo educacional é, portanto, um convite à reflexão, à adaptação e à inovação. É, sobretudo, a oportunidade de construirmos um ensino superior que responda às demandas do século XXI, valorizando a interação entre humanos e máquinas para o avanço do conhecimento e da sociedade.
